quinta-feira, 23 de julho de 2015

Tempo de graduação



Tempo de graduação é época de deslumbramentos, sonhos e planos. Em Direito esse sonho, mais do que outros cursos, pode se entrelaçar com a vontade de tentar fazer a diferença, de mudar tantas condutas erradas no nosso país. Pior seria se os alunos não cogitassem essa ideia, mesmo que seja nos primeiros anos de curso e que seja transitória. Deixem que sonhem esse sonho ímpar, de quem é jovem e tem um futuro pela frente, nenhum professor tem o direito de interferir.

Para muitos estudantes é uma época de se formular expectativas altas em relação ao futuro. Traçar sua meta de conseguir seu lugar no sistema, mudar de vida e alcançar objetivos. Nenhum sonho pode ser ingênuo ou impossível nas suas cabeças, mesmo para aqueles que já não são tão jovens, que trabalham o dia todo, possuem filhos, sofrem dificuldades financeiras, moram em outra cidade ou passam noites em claro. A caminhada é dura, mas recompensadora no final, mas infelizmente para muitos não tanto o quanto queriam. É importante que se diga isso, pois no fim não há um pote mágico de ouro disponível para todos, a meritocracia irá se fazer presente, e como!

Desde pequeno somos inquiridos a ter a ideia do Direito na figura do juiz, para ser justo deve-se procurar ouvir ambas as partes. Na atualmente tão discutida questão da redução da maioridade penal temos envolvidos pontos de vistas distintos. Os que estão a favor possuem um ponto de vista mais protecionista, alegando que o menor de 18 anos já possui discernimento sobre o “bem” e o “mal”.  Mas alguém já ouviu a opinião do outro lado? daqueles que estão na faixa etária entre 14-16 anos? Nas etapas da aplicação da lei, há a ‘interpretação da lei’. Devendo haver a tarefa de conhecer o espírito da lei, conhecendo o alcance da norma jurídica. Se se afirma possuírem maturidade suficiente para sofrerem efeitos de sanções da lei, ainda não vi em nenhum lugar a exposição de suas ideias sobre a redução da maioridade. Sobretudo aqueles jovens que são estudantes, trabalhadores e que vivem honestamente. Com certeza suas respostas trarão um peso muito grande do preconceito do meio em que vivem o temor de pagar por crimes que não cometeram, apenas em viver em ambiente propício, será muito mais recorrente.

Observo possuir o curso de Direito uma linha muito tênue entre as leis dos homens e as dogmáticas religiosas, em querer transparecer como verdades únicas. Para aqueles que são muito religiosos é muito mais conflituoso tentar manter um equilíbrio que não enverede mais pela expressão da vontade divina. Há uma importância da religião na paz e no equilíbrio social, apesar dos dois procurarem a vivência do bem, como nos diz Anderson e Parker “a injustiça e a imoralidade, que diminuem o homem e impedem o desenvolvimento da personalidade, são intoleráveis para as pessoas verdadeiramente religiosas”. A discussão sobre pessoas verdadeiramente religiosa, não nos diz respeito, mas acredito ser algo notadamente difícil encontrar, num mundo cada vez mais voltado para a competição e para a busca do sucesso representada por bens materiais. A verdade não tem dono, é tudo uma questão de interpretação. Pelas apuradas técnicas de marketing e publicidade, desenvolvida pela psicologia a serviço do capital, até mesmo uma mentira repetida à exaustão pode virar uma verdade.

O modo como se fala faz toda a diferença, isso é fato. Mas o modo como a língua portuguesa é ensinada nas escolas precisa de uma reformulação, se é ensinada deficitariamente está se privando os alunos dos meios que necessitam para alcançar seu desenvolvimento, inclusive da fala. Cada indivíduo tem uma forma própria de se comunicar oralmente, o capital linguístico de um bacharel em Direito, tende a ser bem mais elevado, visto que a linguagem jurídica é o principal instrumento de uso e que deve exprimir formalidade própria do setor. Mas como a língua reflete também as disparidades de uma sociedade, e até mesmo a norma padrão pode ser vista como uma imposição das elites e meio de segregação, o modo de se falar deve relacionar-se ao contexto social. Evitar a linguagem excessivamente forense, e por vezes inadequada, do chamado ‘juridiquês’ expostos em petições bizarras, é uma tentativa de deixar o setor judiciário ainda mais inalcançável pela maior parte da população e fazendo aumentar a sua descrença, além de ser uma tremenda de uma picaretagem.

Na vida profissional, qualquer que seja a área escolhida, não bastará a razão de se estar certo e ao lado da lei. Do ponto de vista da garantia dos direitos civis, os cidadãos brasileiros estão divididos em três classes (os “doutores”, os “cidadãos simples” e os “elementos”). E em cada uma delas haverá de existir, querendo ou não, uma maneira adequada de tratar, desde a mais refinada a mais bruta. E nessa sociedade de valores invertidos, cada vez mais, a sobrevivência depende também das suas redes sociais (falo redes de contatos entre pessoas reais e não àquelas virtuais que erroneamente são chamadas de ‘redes’, não passam de mídias sociais) é preciso agradar e agradecer. Nos sobrando apenas ser honestos e bons, mesmo quando ninguém estiver vendo, mas fica a dúvida se é possível existir realmente esse ‘instinto’ como conduta, primeiro por que para os religiosos há a onipresença de Deus (portanto ninguém nunca estará sozinho), segundo por que analisando a semântica da palavra ‘instinto’ ela não significa comportamentos determinados biologicamente, mas sim padrões culturais (instintos se resumem a pouquíssimos exemplos, como o da criança recém nascida que procura o seio materno). Portanto, sejamos bons e corretos mesmo que não seja o padrão cultural do brasileiro, nem hoje e nem a longo prazo. Acreditemos no altruísmo, como o homem bom e generoso naturalmente, sem a necessidade de intervenções culturais e religiosas. Para que possamos ter algum fio de esperança.



Texto de Christiano Souto, economista 
e bacharelando de Direito

Um comentário:

  1. Esse tempo de descobertas e aperfeiçoamento acadêmico é de suma importância no crescimento do ser humano, pois não é apenas o contato com as disciplinas curriculares, mas também toda a vivência do clima de cultura geral que não se pode desperdiçar através dos anos de faculdade, além da chance de conhecer pessoas diversas, muitos colegas, alguns amigos, mestres, com quem vamos compartilhar experiências no intuito de ser melhores cidadãos.

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